OS PORTUGUESES E OS AFRICANOS EM CASA GRANDE & SENZALA:
QUAL O MAIS “CIVILIZADO”?
Jussara Rocha Nascimento - UFBA
O assunto de que trata essa comunicação parte de um recorte em Casa Grande & Senzala em que Gilberto Freyre mostra algumas diferenças civilizatórias significativas de povos que entram em contato a partir da expansão dos europeus pelo mundo e são essas diferenças, segundo a ótica de Freyre, que aqui serão enfocadas.
Casa Grande & Senzala[1] já foi mais do que escrutinado nestes cerca de 70 anos de sua existência. Sua massa de informações foi aproveitada como ponto de partida para vários tipos de pesquisas, atraiu elogios, criticas, positivas e negativas, desconstruções, foi, enfim, passado na peneira, e seus mínimos detalhes mereceram comentários os mais diversos. Haveria ainda alguma coisa a se retirar do texto não percebido anteriormente? Não acredito. Entretanto, o próprio tema deste congresso, Terras & Gentes, nos aproxima de Gilberto Freyre e nos faz lembrar a sua atualidade.
A questão de quem teria sido retratado como mais “civilizado”, em Casa Grande & Senzala, se o europeu, representado pelo português colonizador, ou o africano, tanto aquele representado pelos descendentes dos mouros, como aqueles aqui chegados nas condições de homens e mulheres escravizados, implica, hoje, em discussões bastante obsoletas, à primeira vista. De imediato, destaca-se um problema inevitável: a avaliação dessa hipotética classificação hierarquizadora passaria por que critérios? Além do mais, num momento em que as hierarquias estão sendo pulverizadas, num momento em que as ordens dos “superiores” e dos “inferiores” perdem seus contornos nítidos, perdem, mesmo, sua razão de ser, se é que, de fato, alguma vez essa razão não passasse de algo construído arbitrariamente, que sentido haveria em se tentar voltar a essa questão tão espinhosa?
Num mundo globalizado a partir de uma determinada lógica, a lógica do mercado, a lógica da obsolescência planejada, dos artefatos da morte como produtos glamurizados, com merchandizing produzido até por potências do lazer e entretenimento (como é o caso de Hollywood), num mundo onde a lógica da exclusão aparece como um poder quase onipotente, um mundo no qual a entronização do individualismo chega a um grau que afeta até o lúdico e pode deixar uma sensação de solidão melancólica e ameaçadora, um mundo em que a voracidade aparece como moda sancionada e incentivada, enfim, num mundo em que estes valores parecem dominar e superar o desejo e a disponibilidade para a troca, a retribuição, a solidariedade, essa idéia de que qualquer contato entre povos e gentes implica, inexoravelmente, numa violência, não necessàriamente mútua, mas numa violência, não esqueçamos que os primeiros pilgrims foram recebidos cordialmente pelos povos que já habitavam aquelas terras, os quais logo se dispuseram a ensinar-lhes o cultivo do milho e a preparar peru assado, ou os homens que receberam os primeiros portugueses, os quais, depois de um dia de exaustivos contatos e reconhecimentos, deitam-se e dormem, na caravela de Cabral, ou ainda os africanos que recebiam os “visitantes” europeus com presentes, e sua hospitalidade era assim decodificada: “somos considerados deuses por estes bárbaros”, essa idéia, portanto, de que o contato implica inexoravelmente em violência, coloca-se com tal intensidade que para muitos chega a ser impossível pensar de forma diferente disso. A ingenuidade de um pensamento oposto a este logo ressalta, e entrar nesta seara é como entrar num mundo utópico e apenas ideal. Assim, percebemos que esta violência talvez seja inevitável, mas há valores que certas sociedades cultivam e outras, não. Que valores, psicológicos e espirituais, moveram o “espírito colonizador” daquele europeu, em contraste com os valores necessários à convivência da família humana, nesta nave espacial Terra, em que as trocas são necessárias e desejadas, é o que, talvez, ainda possa ser discutido a partir, também, deste magistral trabalho de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala.
É praticamente um cânone a constatação de que o contato entre gentes e terras implica, necessariamente, em contatos entre o esperto e o ingênuo e que sái ganhando o que mais eficazmente explora e domina o outro, ou o que se dispõe a usar todos os recursos possíveis para tentar impor a sua visão de mundo particular, impor a lógica de sua tecnologia e o seu sentimento de que é ele o cérebro de uma globalização na qual reina e reinará como soberano, até “o fim da história”. Se esta lógica e este sistema de valores implicam em espoliação sistemática de muitos, tanto melhor, é como se isso fosse a prova de sua “superioridade”. E cá estamos novamente diante da palavra hierarquizadora.
Entretanto, fugindo um pouco a esta lógica, somos tentados a especular se o fato de determinados parentes da família humana exatamente só conseguirem criar riqueza a partir da exploração dos outros não seria, ao contrário, uma demonstração de que essa parte da família ainda não tinha sido capaz de se organizar suficientemente a ponto de conseguir prover os recursos da sua sobrevivência autonomamente, isto é, sem necessidade de se tornarem conquistadores e causadores de genocídios irreparáveis, sem necessidade de estarem sempre pilhando os demais, não importa de que formas sofisticadas, violentas ou sutis, num momento psicossocial de voracidade desequilibrada e perversa, expressa tal como no movimento colonial-imperialista ocorrido no mundo a partir da Europa do século XVI, numa demonstração, ao contrário, da sua própria incapacidade de se relacionar com os demais sem esta atitude de hostilidade, ou de truques de como enganar o outro ou, muitas vezes, com uma atitude psicológica que chega a parecer uma inveja ressentida, diante da beleza e da saúde do outro, como dá a entender a relação da parte da família humana que, presa no gelo caucasiano, após o final da última glaciação, perdeu parte considerável de sua melanina e, num posterior reencontro com sua família original, pode ter se sentido inferior, inclusive esteticamente.
São questões complexas que as inúmeras mordaças intelectuais não conseguem impedir por completo que apareçam, num momento ou noutro, mais cedo ou mais tarde, como flashes incômodos e, talvez, equivocados, mas que teimam em se fazer presentes.
E o que nos diz Freyre, em Casa Grande & Senzala sobre este contato? Violento, sem dúvida, mas, naturalmente, com trocas. Teria havido mais generosidade por parte de uns do que outros nesta troca? Ou seja, colocado de forma diferente, haveriam aqueles que mais tinham a contribuir do que outros? E em que medida suas próprias organizações sociais teriam permitido este acervo para as eventuais trocas nos contatos das gentes de terras diferentes?
O europeu, representado pelos portugueses, principalmente, em Casa Grande & Senzala, muito tinha aprendido com os mouros, muçulmanos do norte da África que se instalaram na península ibérica num momento em que os antigos povos que fizeram parte das chamadas “invasões bárbaras” ainda estavam se organizando em sociedades civilizadas.
O mouro, tal como nos diz Freyre, aparece como introdutor de técnicas na embrionária Europa no momento da sua ocupação, da Península Ibérica, e também depois de sua expulsão, quando portugueses se espalham pelo mundo. Mas vamos a Freyre:
o grosso da população hispano-romana-goda, excluída somente irredutível minoria refugiada nas Astúrias, deixou-se impregnar nos seus gostos mais íntimos de influência árabe ou moura.[2]
Ressalta este autor que a cegonha, máquina de tirar água dos poços, foi contribuição técnica dos mouros, como também a nora[3], engenho para elevar a água, aliás, dois engenhos que eles haviam aprendido após invadir o antigo Egito, no início do século 7, conseguindo aprender dessa primeira grande civilização mundial, africana, não esqueçamos, incontável acervo civilizatório.
Porque a expressão “trabalhar como mouro”? Explica Freyre:
É que foi o mouro a grande força operária em Portugal. O técnico. O lavrador. Ele quem deu às cousas sua maior e melhor utilização econômica. Quem valorizou a terra. Quem a salvou das secas por meio de inteligente irrigação[4]
já que a terra do sul de Portugal, necessitada de irrigação, só foi “tornada zona produtiva pela ciência dos invasores”[5].
Continua Freyre:
Não só a oliveira foi aumentada de valor e utilidade pela ciência dos mouros; também as vinhas. Além do que foram eles que trouxeram à Península a laranjeira, e o bicho-da-seda. Desempenharam função de técnicos (...). O mouro forneceu ao colonizador do Brasil os elementos técnicos de produção e utilização econômica da cana. (...)[6]
De modo que a sombra do mouro, sua grande figura de criador e não apenas explorador de valores projetou-se beneficamente sobre os começos da economia agrária brasileira. O sistema econômico adotado no Brasil foi o mesmo inaugurado pelos aventureiros nórdicos em Portugal após a reconquista cristã, com a diferença do prestígio eclesiástico não ter aqui absorvido o do particular, o da família, o do senhor feudal. Mas a técnica industrial foi a dos mouros. O engenho de roda de água, principalmente[7].
Depois da expulsão dos mouros, quando Portugal vai iniciar sua “aventura ultramarinha”, como se diz, Freyre ressalta que aqueles moçárabes e mouros que haviam permanecido em Portugal, como camponeses, vão se deslocar para as cidades marítimas e comerciais já que “mouros e moçárabes, valiosos como eram, pela sua aptidão técnica”[8] ou
o elemento mouro e moçárabe que, pela sua maior riqueza de aptidões industriais” (depois de deslocar-se para as áreas semi-urbanas), “foi-lhes fácil, nestas novas circunstancias, o triunfo econômico.[9] (...) suas aptidões técnicas (sapateiros, alfaiates, ferreiros, peleteiros) tornavam-nos (...) elementos de grande valor nas expedições de fidalgos arruinados e soldados aventureiros que outra coisa não sabiam senão manejar a espada, agora inútil. Ferreiros, sapateiros, peleteiros, pedreiros, ourives, moedeiros, tanoeiros, tornaram-se uma verdadeira aristocracia técnica impondo-se ao respeito de uma sociedade saída quase de repente da monotonia agrícola e da simplicidade rural (...) seriam originários da plebe moçárabe, já valorizada por dois séculos de promoção social, muitos dos carpinteiros, dos ferreiros, dos alfaiates, dos sapateiros, dos açougueiros de que se formou, em grande parte, a sociedade paulista.[10]
Continua Freyre:
O ponto a destacar é a presença, não esporádica, porém farta, de descendentes moçárabes, de representantes da plebe enérgica e criadora, entre os povoados e primeiros colonizadores do Brasil. Através desse elemento moçárabe é que tantos traços de cultura moura e mourisca se transmitiram ao Brasil. Traços de cultura moral e material.[11]
os artífices coloniais, a quem deve o Brasil o traçado de suas primeiras habitações, igrejas, fontes e portões de interesse artístico, foram homens criados dentro da tradição mourisca. De sua mão recolhemos a herança preciosa do azulejo (...) Mais do que simples decoração mural (...) o azulejo mourisco representou na vida doméstica do português e na do seu descendente brasileiro dos tempos coloniais a sobrevivência daquele gosto pelo asseio, pela limpeza, pela claridade, pela água, daquele quase instinto ou senso de higiene tropical, tão vivo no mouro. (...) O azulejo guardou, pela própria natureza de seu material, as qualidades higiênicas, caracteristicamente árabes e mouriscas, de frescura, lustro fácil e limpeza[12]
Este aspecto leva Freyre a fazer, mais uma vez, comparações, neste caso, em relação aos portugueses daquela época:
Os cristãos peninsulares dos séculos 8 e 9, foram muitas vezes retratados como ‘indivíduos que nunca tomavam banho, nem lavavam a roupa, nem a tiravam do corpo senão podre, largando os pedaços. O horror à água, o desleixo pela higiene do corpo e do vestuário permaneceu entre os portugueses. Cremos poder afirmar que mais intenso nas zonas menos beneficiadas pela influência moura.[13]
Freyre também discute a questão da superioridade do africano escravizado “em capacidade técnica e artística” “até ao português” [14]. Refere-se ao fato de que a mineração de ferro, no Brasil, foi aprendida dos africanos, citando Eschwege que mostra que “a primeira indústria de preparo direto de ferro, nas forjas rudimentares de Minas Gerais” é mérito dos africanos[15] e que estes tinham superioridade técnica não só no trabalho de metais como na criação de gado[16].
Freyre recorre ainda a Afonso E.Taunay (História do café no Brasil, 1939), que mostra que
(nas décadas de) 1860, 70, 80 - aos fazendeiros paulistas ‘causou verdadeiro pasmo verificarem entre as levas vindas do norte a existência de numerosos escravos alfabetizados, alguns deles até mais letrados talvez que os seus novos senhores e outros, sobretudo os baianos, sabendo recitar trechos e trechos de Castro Alves, Junqueira Freire e Gonçalves Dias’.
Freyre cita, também, o Abade Étienne, usando critérios tais como “culturas mais ou menos nobres”:
O abade Étienne revela-nos sobre o movimento Malê da Bahia em 1835 aspectos que quase identificam essa suposta revolta de escravos com um desabafo ou erupção de cultura adiantada, oprimida por outra, menos nobre.[17]
Aponta o critério da alfabetização como um critério de maior capacitação técnica, necessária àquela época, mostrando que, em alguns momentos, esta capacitação poderia até aparecer como invertida, como na seguinte circunstância:
O relatório do chefe de polícia da província da Bahia, por ocasião da revolta, o Dr. Francisco Gonçalves Martins, salienta o fato de quase todos os revoltosos saberem ler e escrever em caracteres desconhecidos. Caracteres que “se assemelhavam ao árabe” (...).
É que nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas grandes (...).[18]
e que muitas vezes o dote exigido pelos senhores para casar suas filhas era nada mais nada menos que saber ler:
no século XVIII e princípios de XIX, quando ‘os mais simples conhecimentos elementares eram tão pouco espalhados que, não raro, ricos fazendeiros do interior encarregavam seus amigos do litoral de lhes arranjar um genro que em vez de quaisquer outros dotes apenas soubessem ler e escrever’[19].
Para concluir, vemos que Gilberto Freyre deixa entender que, nestas trocas e contatos de gentes, nas terras, muitas vezes, a parte da família humana que parece ser, digamos, “superior”, em valores civilizatórios, não o é.
Freyre compreende que a formação brasileira é “um processo de equilíbrio entre antagonismos”, mas não exclui a contribuição africana atribuindo a esta, necessàriamente, um atributo de contribuição de “segunda classe”. Reconhece que mesmo numa situação de desigualdade e escravização, “a mediação africana no Brasil aproximou os extremos, que sem ela dificilmente se teriam entendido tão bem, da cultura européia e da cultura ameríndia, estranhas e antagônicas em muitas de suas tendências”[20]. Se todos se entenderam “tão bem” assim como quer Freyre é outra história, entretanto, qualquer contribuição para um melhor entendimento entre gentes, nesta tão difícil aventura da vida, afinal, não é nada desprezível.
O autor de Casa Grande & Senzala refere-se a “uma circunstância significativa resta-nos destacar na formação brasileira: a de não se ter processado no puro sentido da europeização” [21], aspecto que, hoje, alguns pesquisadores, como é o meu caso, tendem a saudar da seguinte forma: ainda bem.
[1] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969.
[2]Id., p. 292.
[3]Id., p. 293.
[4]Id., p. 294.
[5]Id., p. 321.
[6]Id., p. 294.
[7] Id., p. 295.
[8] Id., p. 296.
[9] Id., p. 297.
[10]Id., pp. 304-5.
[11]Id., p. 306.
[12]Id., p. 308.
[13]Id., p. 310.
[14]Id., p. 396.
[15]Id., p.307.
[16]Id., p.429.
[17]Id., cap. IV
[18]Id., p.417.
[19]Id., p.418.
[20]Id., p. 73.
[21]Id., p. 73.